Adoro todas as minhas amigas mas começo a fartar-me da conversa das divorciadas que culpam os ex-maridos de todas as desgraças e dores, faltas e falhas, borbulhas e queimaduras no fogão. Oh porque o cabrão telefonou quando estava a fazer a depilação, enervei-me e espalhei a cera no sítio errado, porque aquele filho da puta veio buscar os putos ainda nem tinham jantado e, quando ouvi a campainha, agarrei no pirex do peixe assado sem pegas, porque ando chateada sem homem e é verão e só vejo casais nas esplanadas e gastei o ordenado todo em vestidos e agora aquele sacana não adianta o dinheiro dos filhos do mês que vem, não aguento uma relação porque aqueles anos todos com aquele estupor me deixaram muito marcada e magoada, porque a parede da sala está toda esburacada com os pregos dos quadros horríveis dele, porque há uma crise mundial e não fui aumentada e a culpa - não sei como, mas tenho a certeza! - só pode ser dele, quando investiu na bolsa o dinheiro que a tia lhe deixou e acho que foi isso que provocou a queda global das bolsas, eu bem lhe tinha dito que era preciso era mudar de carro, aquele inútil nem isso!
É certo que seriam uns trastes, pois está claro, seja porque nos deixaram e trocaram por uma flausina pirosa com as mamas todas de fora, seja porque lhes metemos as malas à porta, fartas de tanta migalha, pelo no lavatório e a almofada do sofá marcada com o rabo deles. Mas isso não impede de sermos umas princesas que merecemos melhor: e merecer melhor começa por apagar esse ódio e esquecermo-nos de todos esses detalhes menos felizes. E - vá, um esforço - reconhecer que também não fomos sempre perfeitas e, às vezes, a culpa não é de ninguém.
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5 Responses to “a culpa não morre - de todo - solteira”
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Gostei muito.
11 de julho de 2009 às 19:05Carregadinha de razão.
Era tão útil que isto saisse assim em Dário da República.
11 de julho de 2009 às 21:34A culpa é sempre (mais) de alguém!
13 de julho de 2009 às 01:36Quando chove, a culpa não é de ninguém. Quando as pessoas fazem merda, a culpa é de alguém!
A diferença é grande.
Miguel, acho que é dificil medir assim a culpa mais/menos. A culpa é de ambos, por razões diferentes. Não há mais culpa e menos culpa. E, acima de tudo, não há (enm em quem está de fora) capacidade para avaliar essas situações e classificá-las.
13 de julho de 2009 às 09:57Nem mais...a culpa de todos os males do mundo até pode ser deles...mas a culpa de azedar e nao andar para a frente é de quem se prende a isso e não dá oportunidade de ver e fazer diferente.
14 de julho de 2009 às 10:50Enviar um comentário