Foi a barriga a culpada. Não foram as calorias que iam entrando e saindo ao sabor de chocolates, tristezas e adrenalinas várias, que se alojavam por aqui e por ali, abaixo da cintura e acima dos joelhos e, quando sobravam, animavam o decote. Essas, velhas amigas, às vezes bastava um fim de semana sem dormir para desaparecem quase por completo. E também não foram as celulites até às orelhas, que atacam até as mais magras e depois bem nos podemos convencer dos cremes milagre, que não acontece nada, por ali estacionam e acabamos por nos habituar. Muito menos as veias, todos os capilares à flor da pele, mapas de rios vermelhos, roxos e azuis, o tempo a passar e as pernas feitas mapas de derrames. Os brancos, as rugas? Nada de grave, que uns se pintam e as outras se atenuam e até se poderia dizer que dão alguma graça.
Enquanto a cintura se mantinha de menina, enquanto os biquinis se levantavam nos ossos da bacia, tudo era suportável, todas as saias, todos os vestidos e todas as calças e todas as camisolas justas e que fosse uma mulher pera, maçã ou abacate, era ainda uma mulher parecida com uma boneca de papel, daquelas desenhadas e recortadas com as cinturas muito marcadas e espaço para os recortes brancos dos cintos se poderem dobrar para dentro.
Foi a barriga a culpada. Foi aparecendo e sempre a impressão que passa daqui a uns dias, alguma coisa que comi, são as hormonas fazem-me inchar, ando esquisita mas isto é provisório e as calças de botão aberto na cintura que encolhem na máquina, uma maçada mas passa daqui a uns dias e os dias a passarem e a barriga ali, sem desaparecer. Oh, pois pode ser nada de grave, claro que não tens barriga nenhuma, tem dó, olha ali aquela e nem 18 anos tem, olha a daquela, olha a minha, tem paciência, isso não é de todo barriga e tudo o que era justo a mostrar que não era provisório, que não era passageiro e de repente tudo o resto tomou a proporção devida, as outras calorias todas em todo o lado, as brancas sem deixarem amarrar o cabelo, os mapas nas pernas a ficarem visíveis, as rugas vincadas na cara, a carne flácida, os tornozelos grossos, de repente caíram os anos todos que tinham ficado para trás, arrumaram-se os vestidos mais justos, subiu-se um número ou dois e a boneca passou a ter um recorte direito de quem não sabe desenhar cinturas.
Há-de habituar-se que sabe que a beleza vem de dentro e quanto mais se envelhece mais de dentro terá que vir.
As bonecas mal recortadas
27.6.09
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3 Responses to “As bonecas mal recortadas”
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LOL! Adorei!!
29 de junho de 2009 às 11:06"a beleza vem de dentro e quanto mais se envelhece mais de dentro terá que vir" - impagável de génio literário!
Filha, querida, miúda,blogger irmã: temos que put it out in the open, que textos como este são bons demais para ficarem aqui escondidos.
30 de junho de 2009 às 00:13Soberbo!
3 de julho de 2009 às 10:48PE
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