(On why we should have stayed fuck buddies)
Sei bem que os erros se pagam e que mais cedo ou mais tarde temos que enfrentar as decisões e opções que tomámos e mais do que tudo responsabilizarmo-nos por tudo o que daí advém. E sabermos assumir sem culpabilização para seguirmos em frente sem ficarmos presos a um passado que não passa duma pedra cujo peso depende apenas do quanto nos fica colado no presente.
Nem sei porque decidi aceitar os teus pedidos constantes para que iniciássemos uma "relação". O sexo era bom, infelizmente muitos dos meus erros começaram por aí porque confundo muito as coisas. Achei que o sexo era mais do que suficiente para cobrir todas as outras dimensões que te faltavam. E talvez tivesse ficado lisonjeada pela atenção tanta que me dispensavas e achei que sim, que talvez fosse uma boa ideia deixarmos definitivamente de lado os nossos encontros sexuais ilícitos para adquirirmos essa tal estabilidade que a palavra "relação" prometia.
Em boa verdade não era só o sexo, tu eras uma pessoa extraordinariamente inteligente e eu adoro bons intelectos. Invariavelmente as nossas conversas enveredavam por caminhos tórridos que nos deixavam à beira do orgasmo, que se cumpria sempre com uma eficácia brutal.
Os problemas vieram depois porque a nossa "relação" implicou que eu abdicasse do meu espaço, numa invasão de "tralha" para a qual não estava preparada e que me deixou em estado de choque. Admitiste finalmente querer partilhar muito mais do que um intelecto fortemente erótico e o suor do teu tesão. E depois querias saber o que eu achava, o que eu pensava, o que faria eu no teu lugar. Querias que assumisse a tua "tralha", que me co-responsabilizasse por ela, que te ajudasse a "arrumar a casa"! E eu que não sou tua mãe, nem tua irmã, nem sequer muito tua amiga entrei em parafuso e acho que sim, que te dei um desgosto daqueles de partir o coração em mil bocadinhos sem saber se haverá reparação possível para tamanho estrago. E durante um tempo ainda aguentei as tuas recriminações porque carregava um sentimento de culpa por te ter "enganado" ao aceitar-te da forma como o fiz.
Pedi-te mil vezes desculpa, nunca me perdoaste (provavelmente com razão). Até que um dia peguei nesse sentimento feito pedra e atirei o mais longe possível, para bem longe daquilo que hoje sou e tenho. Risquei-te como mais um dos meus erros e se agora te voltei a mencionar é apenas como alívio temporário de um certo incómodo que de quando em vez me assola, como um caroço de cereja regurgitado contra uma parede ou como uma espinha que atravessa o goto para ser cuspida contra uma folha de papel em branco. Caía bem dizer que gostava de saber se estás bem, mas na realidade estou-me nas tintas porque espero sinceramente não voltar a ver-te nunca mais.
Onde andam os iguais ?
22.8.10
Passei o dia a matutar nisto e não ía conseguir ir dormir sem vomitar a treta da reflexão e da pergunta.
Parece-me a mim que metade dos gajos andam à procura de uma mãe, e a outra metade à procura de quem controlar facilmente.
O que há de errado em se ter ao lado alguém que seja um igual, em vez de alguém que se considera de uma forma ou de outra superior ou inferior ?
Parece-me a mim que metade dos gajos andam à procura de uma mãe, e a outra metade à procura de quem controlar facilmente.
O que há de errado em se ter ao lado alguém que seja um igual, em vez de alguém que se considera de uma forma ou de outra superior ou inferior ?
Férias
9.8.10
Tudo de férias, certo? Bom, eu gosto de trabalhar em Agosto. Vá... trabalhar entre aspas, pronto. Entre umas e outras (aspas) que lá vai mais uma historinha.
Chega-me um dia o gajo a casa (à minha) e diz que vai sair de casa (da dele, claro). Que até já andou a ver anúncios na net, gosta do bairro onde mora, que fica a uns dez minutos do gabinete dele.
Os devaneios assaltam-me logo toda (opá, que querem ? eu prefiro continuar a sonhar e depois dar uns enormes trambolhões do que simplesmente apagar a esperança da minha vida). Saltamos os dois para o computador e vemos casa atrás de casa.
Afinal, já vai para dois anos que estamos "juntos" (mmm.... este post está cheio de aspas por todos os lados, enfim). Das 6 da tarde às 9 da noite, durante a semana, é certinho. De vez em quando, ele simplesmente não vai ao gabinete (privilégios das profissões ditas liberais) e eu fico "doente" e não vou trabalhar. São dias que passamos na cama, a rir e a conversar, a fazer amor e planos para o futuro. Escolhemos mobílias, falamos sobre os filhos que ainda vamos ter juntos, inventamos nomes para os dois gatos que hão-de dormir na nossa cama.
Às 7 da tarde (em ponto), a legítima manda a habitual mensagem a perguntar a que horas chega, para ter o jantar na mesa. A cada dia, ele responde "lá pelas 9 e tal". Eu sei que às 8:50 ele vai começar a vestir-se, nem preciso de lhe adivinhar o suspiro. Também sei que dez minutos depois de me ter deixado, já me enterrou naquela parte do subconsciente que ela não consegue ler. Mais ainda, sei que depois do jantar ele terá "trabalho a fazer no computador" enquanto ela fica na sala a ver as telenovelas umas atrás das outras. O trabalho... sou eu, no chat, na webcam, é claro.
Dois dias mais tarde, o desentusiasmo. Eu tinha continuado à procura da tal casa. Um amigo dispunha até de dois espaços para alugar, e eu pergunto-lhe se quer marcar para "irmos" ver (sim, já reparei, este post está cheio de aspas).
A primeira resposta foi o olhar distante. A segunda, as palavras que lhe saem da boca "não vale a pena apressar nada, ainda é só algo em que ando a pensar".
Foi para casa mais cedo, claro. Nesse dia não houve "serão". Para quê ? Por mim, nada mais havia para dizer ou fazer.
Ele volta, eu sei. Volta quando precisar de falar novamente, afinal eu sou a sua "melhor amiga", a "pessoa que melhor o conhece no mundo" (pois, tantas tantas aspas). Também sei que o hei-de aceitar de volta, uma e outra vez. Até me fartar de vez. Porque hei-de lá chegar, um dia.
E nesse dia, quando eu deixar de lhe abrir a porta, só porque já não me apetece nem quero saber, há-de ele acordar. É sempre assim, acordam sempre tarde demais. Mas agora que sei exactamente o que isto é, descobri que jamais viveremos juntos nem concretizaremos sonho nenhum.
Porque EU não quero viver com uma pessoa assim.
Chega-me um dia o gajo a casa (à minha) e diz que vai sair de casa (da dele, claro). Que até já andou a ver anúncios na net, gosta do bairro onde mora, que fica a uns dez minutos do gabinete dele.
Os devaneios assaltam-me logo toda (opá, que querem ? eu prefiro continuar a sonhar e depois dar uns enormes trambolhões do que simplesmente apagar a esperança da minha vida). Saltamos os dois para o computador e vemos casa atrás de casa.
Afinal, já vai para dois anos que estamos "juntos" (mmm.... este post está cheio de aspas por todos os lados, enfim). Das 6 da tarde às 9 da noite, durante a semana, é certinho. De vez em quando, ele simplesmente não vai ao gabinete (privilégios das profissões ditas liberais) e eu fico "doente" e não vou trabalhar. São dias que passamos na cama, a rir e a conversar, a fazer amor e planos para o futuro. Escolhemos mobílias, falamos sobre os filhos que ainda vamos ter juntos, inventamos nomes para os dois gatos que hão-de dormir na nossa cama.
Às 7 da tarde (em ponto), a legítima manda a habitual mensagem a perguntar a que horas chega, para ter o jantar na mesa. A cada dia, ele responde "lá pelas 9 e tal". Eu sei que às 8:50 ele vai começar a vestir-se, nem preciso de lhe adivinhar o suspiro. Também sei que dez minutos depois de me ter deixado, já me enterrou naquela parte do subconsciente que ela não consegue ler. Mais ainda, sei que depois do jantar ele terá "trabalho a fazer no computador" enquanto ela fica na sala a ver as telenovelas umas atrás das outras. O trabalho... sou eu, no chat, na webcam, é claro.
Dois dias mais tarde, o desentusiasmo. Eu tinha continuado à procura da tal casa. Um amigo dispunha até de dois espaços para alugar, e eu pergunto-lhe se quer marcar para "irmos" ver (sim, já reparei, este post está cheio de aspas).
A primeira resposta foi o olhar distante. A segunda, as palavras que lhe saem da boca "não vale a pena apressar nada, ainda é só algo em que ando a pensar".
Foi para casa mais cedo, claro. Nesse dia não houve "serão". Para quê ? Por mim, nada mais havia para dizer ou fazer.
Ele volta, eu sei. Volta quando precisar de falar novamente, afinal eu sou a sua "melhor amiga", a "pessoa que melhor o conhece no mundo" (pois, tantas tantas aspas). Também sei que o hei-de aceitar de volta, uma e outra vez. Até me fartar de vez. Porque hei-de lá chegar, um dia.
E nesse dia, quando eu deixar de lhe abrir a porta, só porque já não me apetece nem quero saber, há-de ele acordar. É sempre assim, acordam sempre tarde demais. Mas agora que sei exactamente o que isto é, descobri que jamais viveremos juntos nem concretizaremos sonho nenhum.
Porque EU não quero viver com uma pessoa assim.
E aturar as ciumeiras ?
22.7.10
Diz o gajo que é casado vai para mais de vinte anos. Diz o gajo que desde que a filha mais nova nasceu, ele e a mulher simplesmente co-habitam, um abraço fugidio aqui, outro ali. Eu vou acenando com a cabeça, como se compreendesse e acreditasse em tudo.
Não compreendo. Não acredito. Mas faço de conta que sim, e depois dos desabafos o sexo é óptimo, há que admiti-lo.
Um último cigarro partilhado e lá vai ele, ao encontro do resto da vida de que não faço nem quero fazer parte. Aproveito para comer e ligo o portátil, faço a ronda habitual pelos mails, facebook, twitter, blogs, respondo a um comentário aqui, fico a pensar em posts que tenho que escrever mas estão ainda a amadurecer cá dentro.
Meio a devanear sobre um texto quase já todo escrito na minha cabeça, poiso o portátil ao lado e acendo a televisão. Apanho a série "Ossos", yay, é uma das minhas favoritas !
Quando dou por mim, são oito e meia da manhã e adormeci tal como estava. No portátil ainda ligado, tenho dez chamadas por atender no skype e quatro mensagens muito pouco simpáticas. No telemóvel, outras três chamadas não atendidas e um sms. Aparentemente "estive no skype". Com outra pessoa, claro. E não lhe atendi chamadas nem liguei nenhuma, o que aparentemente resultou num enorme ataque de paranóia.
Ainda aqui há dias, só mesmo para picar, lhe perguntei se ele teria ideia do que andaria a legítima a fazer naquele preciso momento. A resposta, foi um encolher de ombros indiferente e algo como 'não quero nem saber'.
Vou acordando, apagando tudo clique a clique e fico a matutar no drama todo que se desenrolou enquanto eu dormia calmamente. Envio de volta um sms que diz apenas "huh?". Não tenho bem a certeza se quero continuar a ser actriz neste filme. Se a mim não me pesa a consciência, não tenho que levar com os pesos das dos outros, certo? Engraçado isto, de não conseguirmos fugir à nossa subjectividade e corrermos a julgar a Outra pela nossa própria bitola de adúltero...
Não compreendo. Não acredito. Mas faço de conta que sim, e depois dos desabafos o sexo é óptimo, há que admiti-lo.
Um último cigarro partilhado e lá vai ele, ao encontro do resto da vida de que não faço nem quero fazer parte. Aproveito para comer e ligo o portátil, faço a ronda habitual pelos mails, facebook, twitter, blogs, respondo a um comentário aqui, fico a pensar em posts que tenho que escrever mas estão ainda a amadurecer cá dentro.
Meio a devanear sobre um texto quase já todo escrito na minha cabeça, poiso o portátil ao lado e acendo a televisão. Apanho a série "Ossos", yay, é uma das minhas favoritas !
Quando dou por mim, são oito e meia da manhã e adormeci tal como estava. No portátil ainda ligado, tenho dez chamadas por atender no skype e quatro mensagens muito pouco simpáticas. No telemóvel, outras três chamadas não atendidas e um sms. Aparentemente "estive no skype". Com outra pessoa, claro. E não lhe atendi chamadas nem liguei nenhuma, o que aparentemente resultou num enorme ataque de paranóia.
Ainda aqui há dias, só mesmo para picar, lhe perguntei se ele teria ideia do que andaria a legítima a fazer naquele preciso momento. A resposta, foi um encolher de ombros indiferente e algo como 'não quero nem saber'.
Vou acordando, apagando tudo clique a clique e fico a matutar no drama todo que se desenrolou enquanto eu dormia calmamente. Envio de volta um sms que diz apenas "huh?". Não tenho bem a certeza se quero continuar a ser actriz neste filme. Se a mim não me pesa a consciência, não tenho que levar com os pesos das dos outros, certo? Engraçado isto, de não conseguirmos fugir à nossa subjectividade e corrermos a julgar a Outra pela nossa própria bitola de adúltero...
Visto cá de cima
21.7.10
O meu nome é Eva. Mas podem tratar-me apenas por "A Outra", se quiserem. Claro que de tempos em tempos cada uma de nós é A Outra na vida dos gajos com quem vamos estando. Porque existem outras prioridades, pessoais ou profissionais, é claro. E na realidade, muitas vezes eles também descem uns pontos nas nossas próprias prioridades e passam a ser eles O Outro que empata e nos limita.
No meu caso, contudo, eu sou realmente A Outra. Sou o serão no escritório, o projecto que tem que ser entregue dentro do prazo, a súbita reunião no estrangeiro que calhou em tão má hora.
Mas fiquem descansadas, não vim com o objectivo de vos contar nenhuma história de fazer chorar as pedras da calçada. Achei apenas que seria útil poder proporcionar uma perspectiva diferente. Sei lá, pode até ser que vocês desse lado, as legítimas esposas, começem a olhar-nos de outra forma e se apercebam de quanto acabamos por vos facilitar a vida :)
Ou seja, vai ser assim: estórias e historietas, umas engraçadas, outras nem tanto. Todas baseadas em factos reais e vividas por quem tem, pelos vistos, vocação inata para se meter com esse gajo com quem são casadas, com quem vivem, para quem vivem, seja o que for.
Volto em breve com a primeira. Até lá... descontraiam e aproveitem as férias tanto quanto possível, sim ?
No meu caso, contudo, eu sou realmente A Outra. Sou o serão no escritório, o projecto que tem que ser entregue dentro do prazo, a súbita reunião no estrangeiro que calhou em tão má hora.
Mas fiquem descansadas, não vim com o objectivo de vos contar nenhuma história de fazer chorar as pedras da calçada. Achei apenas que seria útil poder proporcionar uma perspectiva diferente. Sei lá, pode até ser que vocês desse lado, as legítimas esposas, começem a olhar-nos de outra forma e se apercebam de quanto acabamos por vos facilitar a vida :)
Ou seja, vai ser assim: estórias e historietas, umas engraçadas, outras nem tanto. Todas baseadas em factos reais e vividas por quem tem, pelos vistos, vocação inata para se meter com esse gajo com quem são casadas, com quem vivem, para quem vivem, seja o que for.
Volto em breve com a primeira. Até lá... descontraiam e aproveitem as férias tanto quanto possível, sim ?
o alcance do ego
13.7.10
tenho um amigo que é a pessoa mais egoísta que conheço. mas por ser católico e amigo de padres diz à boca cheia "somos todos tão egoístas". como se a mera noção de o ser o tornasse menos virado para si próprio. somos tão egoístas e tudo a ficar na mesma somos tão egoístas e um encolher de ombros um risinho somos tão egoístas, uns tontos nós, que maçada a natureza humana.
és assim também, virado para o teu ego como um espelho gigante onde reflectes os outros. e talvez não fosse tão devastador senão tivesses antes de ti uma série deles que não foram assim, senão tivesses do lado oposto do campo um que não é assim. nesse caso, mesmo ele sendo assim, mais feio, menos interessante, menos excitante e até - atrevo-me a dizer - pior na cama, tu perdes e ele ganha. temos pena.
és assim também, virado para o teu ego como um espelho gigante onde reflectes os outros. e talvez não fosse tão devastador senão tivesses antes de ti uma série deles que não foram assim, senão tivesses do lado oposto do campo um que não é assim. nesse caso, mesmo ele sendo assim, mais feio, menos interessante, menos excitante e até - atrevo-me a dizer - pior na cama, tu perdes e ele ganha. temos pena.
o alcance do inalcançável
8.7.10
também eu meu caro pensei que quando me apaixonasse iria ser tudo maravilha passarinhos a cantar a vida atráves dos óculos cor de rosa e essa merda toda. lembro-me que um dia fiz um coração no status do facebook porque aprendi a fazer nesse dia corações e de alguém ter assumido que aquilo era uma declaração e eu ter de negar com o coração pesando quilos eu nunca me vou apaixonar. eram quilos de pena.
como era possível ter-me esquecido deste sentimento de insuficiência que acompanha estas coisas? do coração a pesar quilos do não me liga não gosta de mim não quer saber no matter what.
não há maneira é isso fofo. não há maneira de fugir à infelicidade.
como era possível ter-me esquecido deste sentimento de insuficiência que acompanha estas coisas? do coração a pesar quilos do não me liga não gosta de mim não quer saber no matter what.
não há maneira é isso fofo. não há maneira de fugir à infelicidade.
o alcance dos códigos
22.6.10
às vezes acho que o problema é a nossa comunicação ser cifrada.
não temos culpa de ser pessoas que não gostamos de falar com as palavras todas.
receber uma mensagem que diz só tá boa? e ter de assumir que lá está escrito o que fizeste hoje? ouvir foi bom falar consigo este bocadinho e imaginar estou cheio de saudades tuas porque não te vejo desde domingo e ainda me faltam dois dias inteiros para te voltar a ver. ouvir ah não sei bem quando volto e pensar que o que estava por trás era embora possa ficar fora duas semanas vou ficar só uma. ouvir gosto de estar consigo e pensar que era mesmo um disfarçado amo-te.
nos outros dias todos penso que afinal o problema é eu ver códigos numa linguagem que é apenas linear e que diz aquilo que as palavras dizem.
não temos culpa de ser pessoas que não gostamos de falar com as palavras todas.
receber uma mensagem que diz só tá boa? e ter de assumir que lá está escrito o que fizeste hoje? ouvir foi bom falar consigo este bocadinho e imaginar estou cheio de saudades tuas porque não te vejo desde domingo e ainda me faltam dois dias inteiros para te voltar a ver. ouvir ah não sei bem quando volto e pensar que o que estava por trás era embora possa ficar fora duas semanas vou ficar só uma. ouvir gosto de estar consigo e pensar que era mesmo um disfarçado amo-te.
nos outros dias todos penso que afinal o problema é eu ver códigos numa linguagem que é apenas linear e que diz aquilo que as palavras dizem.
o alcance da simplicidade
16.6.10
Olha para a fotografia acima. É apenas um fruto mas sabes tu a quantidade de milhões de anos que foram necessários para chegar a esta forma? Imaginas quantos ficaram pelo caminho, por não possuirem um sistema de transporte de alimentos suficientemente perfeito, por não terem uma forma que se adaptasse com exatidão à sua função de fruto?
A nós não nos é exigido tanto, é tudo muito mais simples. Se errarmos, a grande maioria das vezes, poderemos corrigir esse erro. Se não conseguirmos poderemos sempre seguir caminho sem cometer o mesmo erro porque é para isso que servem os erros. Para ensinar.
A nós não nos é pedido que sejamos perfeitos. Apenas que arrisquemos. Se nem isso queres fazer, pois paciência. Há caminho à nossa frente para seguir. Vários aliás. Aprendamos com o nosso erro. Eu a não insistir no que está estragado. Tu a...qualquer coisa que não me interessa minimamente.
o alcance dos sentimentos
8.6.10
O Pedro diz O maior inimigo da amizade é o amor.
mas
O maior inimigo do amor é a vida. São os dias. As noites. Os amigos. Os filhos. As casas. Os carros. O trânsito. Os dias de sol. A chuva. Os dias bons. A doença. A tristeza. O dinheiro.
O amor já tem tudo contra ele à partida. Portanto se a amizade tiver apenas um inimigo, terá grandes hipóteses de sobreviver.
mas
O maior inimigo do amor é a vida. São os dias. As noites. Os amigos. Os filhos. As casas. Os carros. O trânsito. Os dias de sol. A chuva. Os dias bons. A doença. A tristeza. O dinheiro.
O amor já tem tudo contra ele à partida. Portanto se a amizade tiver apenas um inimigo, terá grandes hipóteses de sobreviver.
o alcance da tranquilidade
7.6.10
tranquilidade. passamos metade da vida a fugir dela e a outra metade à procura dela.
O alcance das cerejas
2.6.10
Saiu de casa sem saber se havia de voltar atrás para lavar aquela mão mas decidiu continuar. Sorriu satisfeito porque afinal após tanta conversa (mero paleio, palavras sem propósito, palavras caídas) bastou um olhar para que ali mesmo, no meio dos destroços, ela se desfizesse em gemidos sensuais que se lhe enrolaram à pele criando-lhe o maior tesão de todos os tempos.
Tinha chegado há escassas horas atrás, cheio de pressa e já levando um atraso significativo para mais uma reunião com aqueles clientes que nunca estão certos que o negócio será o melhor das suas vidas. Entre ensaios de argumentos prontos a esgrimir deparou-se com a mulher acabada de sair do banho, ainda molhada e quente, a comer cerejas na cozinha. Não soube bem porquê, já não sentia aquele formigueiro desde que ela lhe tinha dito que estava tudo acabado entre eles, que estava farta das suas longas ausências. Distraidamente serviu-se de um copo de água gelada, porque estava mesmo cheio de pressa e precisava de manter a lucidez para a reunião que se seguia. Balbuciou mais um "hoje venho tarde..." enquanto ela comia as cerejas, saboreando-as, chupando-as, deixando escorrer-lhes o sumo por entre os dentes, sorvendo, absorvendo e esperando.
Quando acabou de beber a água, viu-a praticamente nua à sua frente, selvagem de repente, ela que sempre tinha primado por uma imagem de discrição acima de tudo e todos. Gritou-lhe, berrou, chorou, voltou à carga com todos os argumentos já mais que batidos entre ambos. Tinha a certeza que ele tinha uma amante, outra mulher que lhe satisfazia os caprichos e desejos. E estava de farta de esperar por ele, que um dia se dignasse a olhar para ela como fizera no início. Cheia de cerejas e farta de desespero, agarrou em tudo o que viu à frente e atirou... contra as paredes, contra o chão, contra ele.
Aproveitou um momento de cansaço para se aproximar dela e agarrá-la pela cintura. Sem palavras, esgotadas, beijou-a com desejo e sentiu o calor à mistura com o aroma intenso das cerejas. Nunca na vida se lembrava que ela lhe tivesse cheirado assim e quando mais inalava mais perdido se sentia. Desfez-se das roupas que subitamente o aprisionavam causando-lhe uma falta de ar inesperada. Ela já estava à sua mercê, percebeu tão bem que ela precisava dum orgasmo tanto ou mais do que ele. De joelhos ela, submissa, e ele penetrando-a por trás, sentido um calor intenso subindo-lhe do sexo até aos olhos, à boca.
Molhada, escorria, puro sumo de cereja à mistura com algo indescritível de bom, de inebriante, de puro e total descontrolo. Não queria vir-se nela, não queria ter que provar aquilo que era seu, preservando assim o sabor que dela escorria. Quando se sentiu, virou-se e aproveitou para regar as paredes com a força do seu jacto, uivando como se fosse a primeira vez que assim se esvaziava.
Ela continuava de joelhos ofegante, à espera da sua vez e ele não se fez rogado. Mantendo-a na mesma posição baixou-se o suficiente para poder finalmente saboreá-la, sentindo de novo o tesão a formar-se à medida que introduzia a língua no seu sexo molhado, quente, cheio de cerejas e mel. Sentiu-a fraquejar, gemendo, aproximando-se dele para que lhe pudesse tocar mais, dentro, fundo. Depois de saciado introduziu-lhe um dedo, depois outro, e sentiu o sexo dela a latejar por dentro. De olhos fechados e deixando-se guiar pelo instinto aplicou-se nas massagens que lhe fazia sentindo o fluxo aumentar por entre os seus dedos. De repente ouviu algo parecido com o estalar de um jarro de água e sentiu o esguicho molhando-lhe completamente a mão, deixando-o com um tremendo tesão.
Mas já era tarde e tinha que sair, levantou-se, vestiu-se e repetiu "hoje venho tarde..."
(Ela sentiu um ligeiro soluço a formar-se nas entranhas. Deixou-o subir e reparou que afinal era um caroço de cereja. Mais um, e outro. Cuspiu-os enojada. Mas vinham mais a caminho, prenúncio duma má disposição inadiável. Não devia ter comido tantas cerejas pensou, à medida que com o jacto que entretanto se formara varria as paredes que antes outros fluidos haviam regado...)
Tinha chegado há escassas horas atrás, cheio de pressa e já levando um atraso significativo para mais uma reunião com aqueles clientes que nunca estão certos que o negócio será o melhor das suas vidas. Entre ensaios de argumentos prontos a esgrimir deparou-se com a mulher acabada de sair do banho, ainda molhada e quente, a comer cerejas na cozinha. Não soube bem porquê, já não sentia aquele formigueiro desde que ela lhe tinha dito que estava tudo acabado entre eles, que estava farta das suas longas ausências. Distraidamente serviu-se de um copo de água gelada, porque estava mesmo cheio de pressa e precisava de manter a lucidez para a reunião que se seguia. Balbuciou mais um "hoje venho tarde..." enquanto ela comia as cerejas, saboreando-as, chupando-as, deixando escorrer-lhes o sumo por entre os dentes, sorvendo, absorvendo e esperando.
Quando acabou de beber a água, viu-a praticamente nua à sua frente, selvagem de repente, ela que sempre tinha primado por uma imagem de discrição acima de tudo e todos. Gritou-lhe, berrou, chorou, voltou à carga com todos os argumentos já mais que batidos entre ambos. Tinha a certeza que ele tinha uma amante, outra mulher que lhe satisfazia os caprichos e desejos. E estava de farta de esperar por ele, que um dia se dignasse a olhar para ela como fizera no início. Cheia de cerejas e farta de desespero, agarrou em tudo o que viu à frente e atirou... contra as paredes, contra o chão, contra ele.
Aproveitou um momento de cansaço para se aproximar dela e agarrá-la pela cintura. Sem palavras, esgotadas, beijou-a com desejo e sentiu o calor à mistura com o aroma intenso das cerejas. Nunca na vida se lembrava que ela lhe tivesse cheirado assim e quando mais inalava mais perdido se sentia. Desfez-se das roupas que subitamente o aprisionavam causando-lhe uma falta de ar inesperada. Ela já estava à sua mercê, percebeu tão bem que ela precisava dum orgasmo tanto ou mais do que ele. De joelhos ela, submissa, e ele penetrando-a por trás, sentido um calor intenso subindo-lhe do sexo até aos olhos, à boca.
Molhada, escorria, puro sumo de cereja à mistura com algo indescritível de bom, de inebriante, de puro e total descontrolo. Não queria vir-se nela, não queria ter que provar aquilo que era seu, preservando assim o sabor que dela escorria. Quando se sentiu, virou-se e aproveitou para regar as paredes com a força do seu jacto, uivando como se fosse a primeira vez que assim se esvaziava.
Ela continuava de joelhos ofegante, à espera da sua vez e ele não se fez rogado. Mantendo-a na mesma posição baixou-se o suficiente para poder finalmente saboreá-la, sentindo de novo o tesão a formar-se à medida que introduzia a língua no seu sexo molhado, quente, cheio de cerejas e mel. Sentiu-a fraquejar, gemendo, aproximando-se dele para que lhe pudesse tocar mais, dentro, fundo. Depois de saciado introduziu-lhe um dedo, depois outro, e sentiu o sexo dela a latejar por dentro. De olhos fechados e deixando-se guiar pelo instinto aplicou-se nas massagens que lhe fazia sentindo o fluxo aumentar por entre os seus dedos. De repente ouviu algo parecido com o estalar de um jarro de água e sentiu o esguicho molhando-lhe completamente a mão, deixando-o com um tremendo tesão.
Mas já era tarde e tinha que sair, levantou-se, vestiu-se e repetiu "hoje venho tarde..."
(Ela sentiu um ligeiro soluço a formar-se nas entranhas. Deixou-o subir e reparou que afinal era um caroço de cereja. Mais um, e outro. Cuspiu-os enojada. Mas vinham mais a caminho, prenúncio duma má disposição inadiável. Não devia ter comido tantas cerejas pensou, à medida que com o jacto que entretanto se formara varria as paredes que antes outros fluidos haviam regado...)
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A inocência dos silenciosos
1.6.10
Ela cala-se, emudece, baixa a cabeça quase em vénia. Ouve as palavras ditas em propositado descuido, escolhidas, parece-lhe, ao acaso, como que ali caídas nas mãos que se movem vagamente, na direcção de pardais que escondem o olhar -em vénia perante a migalha - que se podem assustar. Sim, há medo e migalhas à mistura e palavras caídas. Há anjos caídos, também, trespassados por setas cuspidas de corações furados. Há mãos em sangue das bicadas de pássaros inocentes. Há Alices que partem espelhos na cabeça de gatos que já deixaram de sorrir. Há o caçador e a mãe do cão. Há tempo a perguntar as horas ao tempo que passa. Há tantas coisas e nada é exactamente aquilo que não parece. São só palavras. Só palavras.
O alcance dos perfis
26.5.10
Saltitando de perfil em perfil e já nem sei como, sinceramente, mas o mundo é tão, mas tão penico e, de repente, salta-me à vista a criatura. A criatura que era tão mas tão anónima, tão escondida, tão reservada, mas o mundo também pula e avança e a pressão social de família e amigos terá sido grande, ei-la ali, em todo o seu esplendor de cara e nome no FB. Oh, perfil todo aberto, a mostrar que apenas se usa aquilo por desfastio, agora este amigo adicionado, agora aquele ali e ali de lado, a prole, pois claro, a prole que usa entusiasticamente o FB. É isso então, a pressão, de certeza e eu a linkar no perfil da prole e a prole, desenxergadíssima, tudo aberto, centenas de fotografias para toda a gente que quiser ver, a demonstrar que em casa de ferreiro, espeto de pau: progenitores que eram tão anónimos, tão devassadores da privacidade dos outros e furiosos protectores da deles e a prole, ali, escancaradinha da silva.
Não me interessa muito, confesso, não me interessa grande coisa, mas vou ver, já agora, deixa cá ver a tromba da criatura e da família. Rugas e peles descaídas, estava-se mesmo a ver, a velhice e a desistência já tão anunciada. E desato a rir, a rir, a pensar, ah que vingança, cá se fazem e cá se pagam, a criatura, desinfeliz e a família, feia, sem graça, sem pinta, sem charme, sem coisa alguma que mereça mais que dois minutos de olhar e fechar a janela. Nem precisei de fazer nada, o tempo encarrega-se de tudo, leva tudo, quando se desiste. Azar.
O alcance dos escadotes
Tenho andado aqui às voltas sobre qual a maneira de responder à Tricia ali em baixo porque a indignação não é um bom ponto de partida para se começar a escrever seja o que for e onde for! Mas aqui é onde um dia achámos que íamos ter escadotes, para alcançar mais além, para lá dos muros e dos fastios e das rotinas e de tudo o que nos faz querer fugir de lá para vir para aqui! Há um mundo, como diz a Tricia, mas esse mundo não é o nosso! Fingimos que lá estamos, quando temos que estar, sorrimos beatificamente, quando tem que ser, e fingimos que somos iguais ao resto da parra quando a verdade é que… aqui somos super uvas, o supra-sumo da melhor uva que algum dia se produziu em solo algum por esse mundo fora e noutros mais que houver!
Não temos que nos fazer melhoríssimas da silva porque sabemos que o somos! Aqui somos! E lá também, mas lá é diferente por causa das "virtudes" e "qualidades" que muita educação restritiva nos impôs ao longo de toda a nossa existência. Fica feio evidenciarmo-nos porque temos que pensar nos outros e a humildade e a submissão e porque há outros maiores e melhores, de certeza que só pode haver dizem-nos e diz-nos o nosso egozito que começou a apanhar desde o dia em que nasceu.
Mas isso era antes dos escadotes porque agora podemos subir e vir para aqui e aqui não temos que fingir nem temos que concordar com os modos do mundo de lá. Aqui somos todas irmãs, mulheres, melhores, maiores! E entre nós temos esta união quase ancestral que nos fortalece e nos impele a subir aos escadotes que umas e outras vão deixando pelo caminho… por isso e por muitas outras coisas querida Tricia te digo que o nosso caminho só pode ser ascendente! Estes escadotes não têm modos de se descerem! Encontramo-nos lá em cima? :)
Não temos que nos fazer melhoríssimas da silva porque sabemos que o somos! Aqui somos! E lá também, mas lá é diferente por causa das "virtudes" e "qualidades" que muita educação restritiva nos impôs ao longo de toda a nossa existência. Fica feio evidenciarmo-nos porque temos que pensar nos outros e a humildade e a submissão e porque há outros maiores e melhores, de certeza que só pode haver dizem-nos e diz-nos o nosso egozito que começou a apanhar desde o dia em que nasceu.
Mas isso era antes dos escadotes porque agora podemos subir e vir para aqui e aqui não temos que fingir nem temos que concordar com os modos do mundo de lá. Aqui somos todas irmãs, mulheres, melhores, maiores! E entre nós temos esta união quase ancestral que nos fortalece e nos impele a subir aos escadotes que umas e outras vão deixando pelo caminho… por isso e por muitas outras coisas querida Tricia te digo que o nosso caminho só pode ser ascendente! Estes escadotes não têm modos de se descerem! Encontramo-nos lá em cima? :)
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Mediocridade aqui não entra
o alcance do acaso
24.5.10
Um dia vamos ao café em frente a casa comprar cigarros, como é hábito no estabelecimento, não têm moedas. Apesar da chuva iminente, vamos até ao fundo da rua onde sabemos que nos vendem tabaco, mesmo que não tenhamos moedas. No trajecto uma placa chama-me a atenção, mas, ainda assim seguimos caminho. A placa continua a pairar na mente. Compro os cigarros para mim e uma pastilha para ele. No caminho para casa, novamente a placa e paramos e olho e volto a olhar. A cabeça a mil e um sonho ali tão perto. Meia dúzia de passos à frente e recolho a informação fundamental que não constava na placa. Seguimos caminho, eu levo os cigarros na carteira, ele mastiga a pastilha. A cabeça a duzentos mil. Borbulham ideias, assaltam dúvidas, a cabeça não pára e o entusiasmo cresce. Chegamos a casa. Não páro, contínuo num constante frenezim. Ideias que procuro, ideias que me assaltam, dúvidas que se levantam. Acendo um dos cigarros que comprei e que trazia na mala. Inspiro o fumo e antes mesmo de o expelir já tenho o cenário do sonho montado na cabeça. Algumas das soluções já estão encontradas. A dúvida essencial resiste ainda sem solução. A cabeça não pára e já dói. Consigo ter uma imagem nítida, mas tenho de acordar e viver.
O alcance do protagonismo
22.5.10
Somos umas burras, é o que é. O que deveríamos fazer era fazer que somos mais do que somos. Deveríamos dar a impressão que somos muito mais do que o realismo nos deixa, dar a ideia que a última coca-cola do deserto é aqui mesmo, não há mais ninguém capaz de tudo quando conseguimos, enfim, somos as maiores em toda a verdadeira acepção do conceito.
Não é que nos encolhamos ou nos façamos menores, mas seremos realistas e ao mesmo tempo convictas que somos boas, muito boas mesmo, mas haverá melhores, piores, ou até talvez sejamos as melhores, mas achamos que não temos que nos fazer de melhoríssimas da silva. Mais, achamos isso uma vaidade inútil, uma vacuidade, achamos talvez que tanta parra esconde pouca uva, que o nosso mérito falará por nós, que temos valor e ética e basta.
Nada mais errado. O mundo não funciona assim. O mundo, feito de medíocres que se auto promovem sem qualquer pingo de vergonha, só reconhece os seus pares. Nós? Nós não passamos de umas burras. E, provavelmente, para além de o sermos, somos vistas como tal.
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e lá vou eu zurrando alegremente
O alcance dos mantras
19.5.10
Há uns dias dei comigo a pensar exactamente o que está no post "o alcance da correria". Foi depois de ter levado uma chapadona psicológica das grandes, quando ouvi na voz infantil da verdade "estavas a rir tanto e nunca te vejo assim". Oh, que me rio muito, é certo. Mas talvez não me ria às gargalhadas o suficiente, ou com as pessoas que me querem ver rir às gargalhadas felizes, as pessoas a quem faz mais falta que me ria às gargalhadas felizes. Assim, por nada ou coisas parvas, mas confesso que a fazer o jantar ou a pendurar roupa, enquanto faço contas mentais a orçamentos familiares e mais a fruta que está verde ou tem mosquitos, não consigo encontrar motivos para rir. Gosto de arranjar morangos em silêncio, é certo, mas não me rio, sorrio só. E o pior é que não não-me-rio não é por infelicidade, que sou muito feliz, muito obrigada, é que falta tempo: mesmo quando se é feliz, falta tempo para se ter tempo de estar feliz e alegre.
E nesse dia decidi que se acho que se tem que se ser feliz nem que seja à biqueirada, também temos que estar felizes nem que seja à biqueirada a nós mesmos, aos nossos problemas e às nossas chatices. Não é cagar no assunto que as contas não se pagam sozinhas, o tempo não estica e as maçadas se vão embora e não é relativizar que com o mal dos outros posso eu bem e pimenta no cu dos outros e essas merdas todas e quando uma pessoa tem chatices, até podem ser merdosas se comparadas mas temos pena, são as aqui deste lado, as nossas, essas é que aborrecem e moem. Cada qual com as suas e estamos cá para apoiar as dos outros, pois está claro, mas já agora que apoiemos também as nossas, dá algum jeito.
Decidi que temos que estar felizes pelo menos uma vez por dia, ou dez ou assim. Não interessa a que horas ou porque razão, que o estar feliz e alegre é contagioso, se um dia for uma vez, da próxima é mais fácil serem duas e logo se chegará às alturas certas. Por agora e como primeiro passo, é estar-se feliz nem que seja a ouvir o genérico da TSF no meio do trânsito. É como aquelas pessoas que não gostam muito de água mas têm que a beber: metem um aviso no computador e tudo. De tanto em tanto tempo, beber um gole ou um copo. É isso, é beber água mesmo a horas incertas, que seja.
E é o mantra do "foda-se agora estica a boca para os lados, vá lá, não custa nada e ri-te, minha parva".
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