O alcance da (falta de) resolução

23.9.09

O problema é que o nosso caso foi um caso mal resolvido e ficou-me entalado na garganta, como uma espinha ou um caroço. De vez em quando recorda-me que está ali qualquer coisa que não devia lá estar, que me dá náuseas e me dificulta a respiração. Obriga-me a olhar de frente para o espelho, procurar o furúnculo imaginário e espremê-lo bem para que saia de lá o pus infectado que se acumulou desde a última expurgação. E depois limpo aquilo tudo com o mesmo nojo com que limpava a esporra que deixavas no meu sexo.

É por isso que o nosso caso ficou mal resolvido, porque era só sexo, ou por outra, só o sexo é que era bom, tudo o resto foi inventado por mim e esta mania que todas as mulheres têm de romantizar uma relação que se baseia apenas e só em sexo. Estava eu já a construir castelos e futuros imaginários e tu só me querias ali de pernas bem abertas, fingindo que ouvias o que dizia entre os gemidos que te asseguravam que eu estava a ter prazer. E tudo não fazia sentido, nem faz, porque eu estava mesmo a ter prazer mas sempre a pensar que isso não me chegava!

Temporariamente saciaste uma sede animal que tinhas dum cheiro, dum corpo, duma pele, dum sexo e quando te fartaste de tudo isso não perdeste um segundo só a enterrar o cadáver da nossa relação que nunca chegou a ser. Hoje nem te deves recordar sequer do meu nome, tal será a memória que guardas de mim!

A puta aqui sou eu porque foi na minha memória que eu deixei que se alojasse o caroço que cuspiste e ao contrário do que todos dizem, tu saíste a ganhar porque se um dia calhar encontrarmo-nos na rua tu vais seguir em frente sem pestanejar e eu irei ficar ali pregada ao passeio, com a puta da espinha entalada na garganta, sem conseguir andar, falar nem gritar!

O alcance do amanhã-que-hoje-não-quero-pensar-nisso

15.9.09

Um dia a Paula cortou o cabelo. Escadeado e curto: um corte leve, giro. A Paula era gordinha de olhos azuis e o corte ficava-lhe a matar. Elogiei-a:"Estás tão gira, ficou tão bem!" e os olhos dela sorriam, toda ela ligeira e feliz com o corte novo.
Quando o cabelo começou a crescer meti-me com ela "Tens de voltar a fazer o corte, estavas giríssima!". Já não sorriu: "o meu marido diz que não casou com um homem..." e virou costas. Não consegui reagir. Quis dizer "Que cretino, olha o estupor! Grande malcriadão!" mas não me sau nada. Era o marido e se ela própria não se mostrava indignada não me quis meter. "Sê educadinha, deixa-te estar" ouvia avós, pais, professores, anjinhos, sei lá, na minha cabeça.
Meses depois, cabelos pelos ombros depois, a Paula andava cada vez mais triste. Chorava pelos cantos, pediu para ir trabalhar no mesmo sitio que o marido e nunca mais a vi. Mas soube que "foi para estar mais próxima dele que andava com uma colega". Arrependi-me muito de não lhe ter chamado os nomes todos que me passaram pela cabeça antes. Depois caí em mim e soube que pessoas como a Paula nunca mudariam e fariam sempre tudo igual. E foi tristemente melhor assim.

O alcance da injustiça

3.9.09

Fechou os olhos a custo, sentindo as pálpebras a arder enquanto a cabeça latejava, previsivelmente assinalando o início de mais uma enxaqueca. Hoje tinha-lhe dado um ultimato, mais um, mas que tinha decidido ser mesmo o último. Não podia continuar assim, estava em processo de auto-destruição acelerado e se não terminasse rapidamente aquela história não sairia viva da experiência que tinha encetado há dois anos atrás. Na altura achou que devia viver o momento porque aquele homem lhe interessava mais do que todos os outros e não queria nem saber que ele tinha mulher e filhos. E na verdade tiveram momentos muito bons, de entrega total, duma cumplicidade difícil de igualar em qualquer tipo de relação.

Mas houve um dia em que se fartou de esperar. Ele não lhe atendia o telemóvel, e não lhe respondia às inúmeras mensagens que fora deixando ao longo do dia. Começou a ficar preocupada, ele nunca tinha deixado de lhe ligar de volta, talvez não no momento mas acabava sempre por ligar. E depois quando se encontravam os seus expressivos olhos negros davam-lhe sempre a volta ao coração fazendo-lhe lembrar a letra duma velha canção de Francisco José, "olhos negros são queixume de uma tristeza sem fim". E ela queria muito mudar a tristeza que sentia nele, queria tanto conseguir curar essa tristeza que transparecia nos olhos desse homem que amava.

Mas nesse dia, em que esperou mais do que sentiu ser a sua conta, decidiu que não tinha vida para aquilo, para ele. Não podia estar sempre à espera, que lhe desse jeito a ele, à sua mulher, aos seus filhos e ao resto de toda a sua família. Porque nesse dia tinha ficado à espera dele sem saber que a sogra lhe tinha pedido para ir com ela ao IKEA porque precisava dum homem para lhe carregar e montar os móveis que tinha escolhido para remodelar o quarto da filha, mulher daquele homem de olhos negros que não sabia dizer que não a mulher nenhuma.

Considerou muitas vezes se podia viver aquela meia vida com alguém que só lhe podia dedicar um décimo da sua, talvez nem tanto. Mas também a ela custava dizer-lhe que não, os seus olhos negros tinham o condão de a deixarem à beira do desespero. Assim hoje ele tinha que lhe dizer se a queria ou se iria continuar sem ela, como se a história deles tivesse sido apenas um pequeno desvio, como quem lê uma revista de viagens e pensa por momentos em transportar-se para algum recanto recôndito bem longe de tudo e todos. Se ele declarasse que ela tinha sido apenas uma ilusão, uma memória duma vida paralela, dum caminho não escolhido, talvez tudo se evaporasse e ela ficasse finalmente livre.

Quando se encontraram não precisou de ouvir todas as explicações que ele tanto praticara para justificar o injustificável. A sua mulher, os filhos, a imagem de perfeito cavalheiro, os sócios e colegas de trabalho, a empresa familiar construída com o dinheiro da família dela, a felicidade aparente do casal que todos admiravam, a sua integridade física e moral, tudo serviu para lhe dizer que não haveriam oportunidades, nem mesmo para aqueles que sabem esperar. Ela estava no fundo da sua lista e como tal era perfeitamente dispensável, até ela teria que perceber isso. Tinha sido bom, o sexo tinha sido fantástico, mas o futuro não lhes pertencia, aliás o seu "nós" já havia nascido quebrado.

Assistiu impávida enquanto esse homem de olhos negros cor de azedume lhe virava as costas para nunca mais voltar. E assim sem mais alguém a quem tanto tinha dado pedia-lhe para apagar dois anos completos de vida, passando um pano quente húmido de lágrimas por cima de todas as memórias que escolhera guardar daquele homem de olhos negros cor de fealdade, sentindo pela primeira vez a frieza da sua crueldade.

O alcance do desespero II

2.9.09



As botas novas da Madonna vão passar a povoar muitos dos meus futuros sonhos eróticos.

O alcance do desespero

31.8.09

andamos todos desesperados, é o que é.

Ele tinha-me respondido assim quando lhe perguntei quanto tempo mediara entre o primeiro contacto, via net, e o primeiro encontro. Um fim de semana tinha bastado, um dia para trocarem números de telemóvel, outro para smses.
Tinha dito aquilo consciente do que dissera, desesperados. Os que não conseguem esperar.

Não consigo assegurar que antes [há muitos anos] o desespero fosse diferente, ou melhor, mas imagino sempre que antes de existirem telemóveis, emails, auto estradas, o ritmo da vida fosse diferente e as pessoas aprendessem a esperar desde que nasciam. Toda a vida seria uma sucessão de esperas, que a vaca desse leite e a galinha ovos, que chegasse uma carta ou um telegrama, que alguém voltasse da guerra, que o barco atravessasse o oceano.
Assim era que, no meio de outros ritmos e outras vidas, muito haveria a perder, pois a vida continuava algures enquanto alguém esperava - o nosso amor casava-se e tinha filhos com outro, os nossos filhos cresciam sem os vermos, alguém de quem gostávamos muito morria e não descobríamos até muito mais tarde.

Haveria também, acho, muito a ganhar. No cinema, por exemplo, se a personagem da Ingrid Bergman no Casablanca se fosse despedir ao aeroporto neste momento, diria ao Ricky algo como "Meet me in facebook", e nós não teríamos o "We'll always have Paris" para nos lembrar que perfeitos-perfeitos só os amores impossíveis.

O alcance do masoquismo

28.8.09

Já nem se lembrava bem de como tinha ido ali parar. Sabia que aqueles serviços lhe tinham sido recomendados por uma colega de trabalho, num momento de desespero em que tinha deixado escapar uma lágrima acompanhada dum gemido prolongado, incapaz de esconder a profundidade da depressão em que se afundava. O sítio não era demasiado agradável nem confortável mas também não estava à espera que assim fosse. Depois de aguardar durante longos minutos sentada numa cadeira de plástico indicada por uma assistente prestável, viu a figura emergir duma porta que se abria ao fundo do corredor. A dominadora estava ali, marchando determinada na sua direcção.

Não houve cumprimentos de espécie alguma, não era para isso que ali estavam. A dominadora colocou-lhe uma coleira à volta do pescoço e ordenou-lhe que a seguisse. Percebeu que não estava ali para falar nem ser ouvida quando a dominadora a mandou estar calada e lhe colocou uma mordaça na boca. Puxou-a pela coleira e levou-a até uma grande cruz onde a prendeu pelos pulsos e pelos tornozelos. Como que por milagre a cruz elevou-se um pouco e quando levantou os olhos do chão olhou para ela, a sua dominadora à sua frente de pé, as longas pernas abertas num perfeito ângulo de 60º. Foi isso que mais estranhou, essa aparente perfeição geométrica numa figura que tinha mais de repelente do que de atraente. A dominadora estava totalmente coberta de cabedal preto da cabeça às virilhas, sendo o preto dominante apenas interrompido pela brancura das pernas esculpidas abertas num V invertido com botas pretas de salto altíssimo penduradas nas pontas.

O silêncio foi quebrado pelo som da sua roupa a rasgar-se. A dominadora arrancou-lhe tudo, rosnando, furibunda, sempre que encontrava alguma resistência à penosa tarefa. Ficou assim desnuda, exposta, pendurada numa cruz, com uma mordaça na boca sentindo que talvez aquele fosse o princípio do fim de tanto sofrimento, tanta dor, agora seria só a recta final, o culminar de tantos anos a sofrer sem sentido nem motivo. Lembrou-se do negrume das freiras que a tinham educado em criança, lembrou-se da multitude de vezes que lhe diziam que todos nascemos para sofrer, e que ela iria sofrer até morrer porque tinha nascido do pecado, Pecado esse que se tinha tornado tão gigantesco dentro de si que por vezes quase a sufocava. Regurgitava dor em estado líquido e tomava comprimidos para tentar extinguir o vulcão latente de onde ela vinha, acordando sempre sentindo-se pior do que nunca. Talvez provocando a erupção pudesse aliviá-la, talvez... pelo menos era por isso que tinha tentado este último recurso.

A dominadora acendeu uma vela e baixou a cruz, fazendo que com ficasse deitada na horizontal, directamente abaixo duma luz intensa que lhe feria a vista. Fechou os olhos e manteve-se quieta, na expectativa de encetar a dolorosa via sacra. Sentiu um primeiro pingo, depois mais, até ser quase uma maré de pingos de cera a ferver tocando-lhe na pele fria, abrindo pequenos socalcos, empestando o ar com um cheiro de carne queimada. Ah a dor subia, sentia-a despertar dentro de si, pujante, brilhante, maior do que nunca.

A dominadora abriu-lhe um dos olhos e começou a espetar-lhe pequenas agulhas, primeiro superficialmente, depois enterrando-as até encontrar resistência por parte do osso, gerando uma nova dor, mais fina, que se juntava ao grosso caudal que emanava das inúmeras feridas abertas pela cera ardente. Já não via nada, só um buraco negro entrecortado por pequenos raios de luz penetrante sempre que uma das agulhas se enterrava na sensível retina, cravando-se no nervo óptico, destruindo-lhe irremediavelmente a visão.

Era aquela a última experiência, o supra sumo da dor que alguma vez tinha sentido. Aliás já não era ela, tinha deixado de ser, agora era só dor, horripilante, gritando muda no silêncio forçado pela mordaça que lhe tinha sido colocada. Só nessa altura sentiu pânico, sentiu-o crescer face à dor, tentando devolvê-la à sua condição humana, mas já era tarde demais. Sucumbiu face à dor, deixou-se levar por ela, atingiu um patamar nunca antes alcançado mas o seu coração não aguentou. Quando os paramédicos chegaram para a levar já estava morta sem qualquer hipótese de reanimação. Tinha provado a si mesma que só a dor é real, tudo o resto é pura ilusão.

O alcance da exigência

17.8.09

Meu amor, não quero mais isto. Não quero mais esta eterna troca de insultos. Não quero mais não gostar do que vejo, do que oiço, do que sinto. Não quero continuar a desculpar-te, pois só agora tenho eu a culpa. Não quero mais este desatino de insegurança, de exigências constantes, de farpas afiadas direitinhas à minha consciência. Há palavras que se dizem e se assumem das quais não se pode voltar atrás. E tem havido tantas ultimamente.

O alcance do mau

10.8.09

Mau não é cair, tropeçar, voltar ao chão. Sei que me levanto e nem tenho nódoas negras desta vez. Apenas uma cabeça de abóbora que só olha para o cimo e não vê a falta de degraus. Pé em falso, portanto - ía jurar que não faltava degrau nenhum, mas de que serve isso agora?
Mau é que estas recolhas de escadote, estes recuos nas subidas me empurrem para ti. Refugio-me no "tu é que eras". E eras. Ninguém é insubstituível, bem sei. Ou tenho de o pensar que outro remédio não tenho. Mas eras tu. As saudades que eu tenho de uns olhos a brilhar, de umas mãos grandes, do teu tamanho todo e tudo o resto muito básico e físico que me fazia corar de excitação ao ver-te chegar.
Mau mesmo, é que o mundo se torne apenas um jogo e só existamos nós dois: ou sozinha ou a viver para ti, por ti, em ti, sem ti. E tudo o resto, paisagem, peões, figurantes, que nisto do amor à séria, aquele que eu queria mesmo, só existes tu.
Pior é saber que não estás, não vais estar aqui. Sonhar contigo, a dormir ou acordada e tu nunca aqui. Nem números, nem contactos nenhuns. E eu a cada tropeção - que sem pensar, vou refazendo cada pedacinho despedaçado, interesso-me por um ou outro a espaços - volto a ti. Com mais força, mais convicção: eras tu e mais ninguém. Aninho-me em ti como antes e fico assim. Eu sinto-te. Como se fosse hoje. Mas tu nunca estás.

Tem 33 anos [parte III]

5.8.09

Chegou o Verão e ela nunca falava das suas férias.
Ao almoço, mais uma vez, perguntei-lhe "Então, para onde vais de férias?" Não levantou os olhos do prato "Não vou para lado nenhum" e senti que aquela garfada de comida foi engolida a custo, como se tivesse medo que lhe fizesse mais alguma pergunta "Mas porquê?" Os olhos continuavam em cima do prato, os gestos tornaram-se mais rápidos e bebeu o sumo de um trago só "Não posso" e levantou-se com a desculpa que ia fazer um telefonema. Não ia. Saiu e puxou de um cigarro e eu, que nunca a tinha visto fumar, fiquei estupefacta e constatei, nesse momento, que talvez nunca a viesse a conhecer realmente - uns dias tão amável e faladora, outros dias tão reservada e soturna. Quase bipolar, diria.
Quando entrou sugeriu que fossemos tomar café noutro local e num passo rápido avançou para a caixa e pagou o almoço de ambas. Agradeci.
Em todo este tempo nunca falou directamente de si, disse-me apenas que tinha 33 anos, feitos no pior mês do ano - Fevereiro. "Não gosto do Inverno e Fevereiro é um mês que não se define. Custa a passar, sabes?" Não sabia, nunca tal tinha sentido. Aliás, nunca tinha ligado muito aos meses do ano mas fiquei a pensar no meu - Setembro - e acabei por constatar para mim própria que esse sim, talvez fosse o pior mês de todos - o dos recomeços, o que por si só, dá uma trabalheira.
Bebe sempre um café duplo, não lhe põe açúcar mas mexe o café como se o tivesse acabado de deitar. "Agora fumas?"
"Sempre fumei, a única diferença é que agora compro cigarros, antes fumava o fumo dos outros." Não valia a pena, aquele dia estaria com certeza a correr-lhe mal e desisti de lhe fazer este tipo de perguntas. "Vamos?" Fomos. O resto do dia foi passado em absoluto silêncio, apenas com as interrupções normais dos restantes colegas e chefes. Antes de sair, despediu-se com um até amanhã e naquele compasso de espera, entre eu levantar a cabeça da papelada e ela abrir a porta, senti-lhe as reticências na voz, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Mas sorriu apenas e saiu.

O alcance de ter escolha

... e de não a querer fazer. Não quero. Porquê, se posso ter tudo? O céu e o inferno, o bom e o óptimo, a calmaria e o vendaval? Escolho a terceira alternativa, sempre: os dois.

O alcance do desespero

2.8.09

'bora começar os posts todos assim?

Quando era pequena tinha medo de cães, como todas as crianças que não convivem com animais. Diziam-me então os adultos - quando o meu instinto era desatar a correr se via um cão a menos de 100m - não te mexas, o cão só te faz mal se farejar o teu medo.

A mesma medida aplica-se perfeitamente às pessoas do sexo oposto que nos interessam - não te mexas, a pessoa só te maltrata/abandona/ignora/abusa de ti se farejar o teu desespero.

Pena é que, na maior parte das vezes, seja tão difícil controlar os instintos mais primários.

O alcance dos gritos

30.7.09

Diogo parou para tentar rebobinar a sequência de eventos que o tinham levado até aquele momento. Tinha acordado com aquela leve sensação de angústia, semelhante a quando constatava que só lhe restava uma cápsula de Nespresso na prateleira da cozinha. Com o passar do tempo a angústia tinha-se espalhado até se parecer mais com o que sentia quando sabia que ia falhar um prazo de entrega importante.

A sua vida tinha sido um mar de calmaria desde que se lembrava, até ter conhecido Luísa. Por ela tinha-se apaixonado perdidamente, nada a ver com tudo o que tinha experimentado até aí com as outras mulheres que se tinham cruzado no seu caminho. Até então tinha gozado de uma leveza de espírito rara nos homens com quem confraternizava. Andavam sempre todos cheios de problemas... com a mulher, com o carro, com o chefe, com os filhos, com as (ou os) amantes. Ele não, sempre tinha mantido aquela vontade de brindar à vida, sempre vivida de forma intensa e fluida.

Ao início tinha sido tudo tão bom, eram totalmente compatíveis, achava que tinha encontrado a sua alma gémea. Viajaram imenso, fizeram amor em todos os cantos de todos os quartos de hotel por onde passaram. Diogo divertiu-me como nunca, achava que tinha finalmente atingido aquele patamar porque todos os homens e mulheres anseiam, de paz, de segurança, de conforto, de felicidade!

Mas depois um dia os gritos de prazer dela tinham sido substituídos por ordens! Ela queria ter um filho dele, queria um miúdo que herdasse aqueles seus olhões azuis de morrer dentro deles e gemer por mais. E ligava-lhe a toda a hora, queria-o ali a tentar impregná-la, tratando-o como mero contentor dos genes dos futuros filhos dela! Tinha arrastado Diogo de médico em médico, tentando de tudo, obcecada com aquela vontade férrea de parir!

Ontem tinha sabido, ela tinha-lhe dito, assim como se o informasse que tinha ganho o euromilhões. Estava grávida dele, não de um, mas de dois, dois filhos dele, dois rapazes, dois fiéis depositários dos seus genes de ouro! Diogo dirigiu-se para a varanda na vã tentativa de apanhar um pouco de ar fresco, dividido entre a filha da putice da culpa que o assaltava por ter cumprido as ordens de Luísa e a vontade de desaparecer para onde os seus gritos nunca mais o alcançassem.

É, devia ter-se posto a milhas assim que os gritos de "fode-me!" foram substituídos pelos de "faz-me um filho!" Agora estava tramado e bem tramado, num beco sem saída, agarrado, prisioneiro sem apelo nem agravo nem perdão possível, condenado para sempre a tudo aquilo que sempre tinha renegado, escravo dela, deles, e de todas as responsabilidades concebidas artificialmente e in vitro! Puta que a pariu!

Chama-se Raquel [parte II]

28.7.09

Ontem chegou triste. Pousou a mala vermelha e saiu rapidamente a querer esconder as lágrimas que teimavam em saltar dos olhos. Penso que terá ido ao WC e que tenha respirado fundo, escondida por trás das portas minúsculas, tentando ter a privacidade que num escritório enorme nunca se tem.
Quando voltou olhou para mim de relance e eu, vergonhosamente, fingi que não estava a observá-la e continuei atrás do meu monitor, espreitando feita uma velha caquética que gosta de coscuvilhar a vida dos outros.
À hora de almoço perguntei-lhe se queria sair um bocadinho e convidei-a a almoçar comigo num restaurante de que gosto muito - Passion Fruit - ali na 5 de Outubro. Inesperadamente, acedeu.
"Podes só esperar um pouco enquanto faço uma chamada?"
Esperei. E em cinco minutos que ali estive, sentada na minha secretária a escrever post-its para que não me esquecesse das compras que ainda tinha de fazer quando saísse, ouvia-a murmurar que estava farta. Depois desligou.
"Vamos?"
"Claro."
Saímos, ela com a sua mala vermelha eu com a minha castanha e entre o 7º andar e o rés -do -chão, ela quebrou o silêncio que se instala quase sempre nos elevadores.
"Porque me convidaste?"
Surpreendeu-me a pergunta. Ali estava eu, sem ter como fugir, a pouco mais de um metro de distância daquela mulher e com uma pergunta apontada a mim, como se fosse uma arma.
"Não sei bem. Apeteceu-me."
Não disse a verdade. Mas ficámos assim e claro, falámos do tempo e do calor que tardava em chegar. O tempo é sempre uma boa desculpa para quem não sabe o que dizer... e eu não sabia.
No restaurante aquela pessoa deixou de ser quem parecia ser: sorriu, meteu conversa com o empregado e eu diria mesmo que flirtou com ele, deixando-me com uma pontinha de inveja por não ter aquele nível de descaramento: levezinho, subtil como uma pena mas perceptível a quem vê. Abriu-se num sorriso e perguntou da minha vida e eu, que pensava que iria ali para saber mais dela, acabei por falar mais de mim sem qualquer receio ou constrangimento. Estranho, diria.
Antes de entrarmos no escritório disse-se apenas "obrigada". E voltou a olhar para o telefone, mais uma vez, à espera que tocasse.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

Décima quarta. E espero não ser a última, que 'the more the merrier'. A ver vamos o que sai daqui. Não se surpreendam muito, sim? Porque aqui posso escrever o que me der na real gana. E olhem que me tem dado tanto, mas tanto na real gana nas últimas semanas... como me apaixonei perdidamente, o que não seria grande novidade, mas por outra mulher, o que também não é assim uma novidade tão grande, convenhamos. Bom, para mim é.

Obrigada pelo convite, meninas :) Vou adorar estar aqui, já para não dizer que é uma honra.

Relações-qualquer-coisa

27.7.09

ela descrevia-me a noite anterior, de sábado, pensara ir a um restaurante mas ao chegar à porta tinha visto o carro do querido dela ["estamos terminados"] e tinha mudado de ideias. "O meu querido".

Pensei muito nisso porque gostei da expressão mas não deixei de a achar estranha, o meu querido, não o meu namorado, marido, ex qualquer coisa.
Também eu tenho vários ex-qualquer-coisa. Qualquer coisa.
Das milhares de expressões que inventamos para não nos comprometermos com outra pessoa:
Uma tipa com quem ando a sair, é só o X dormimos juntos umas vezes, é a miúda que ele anda a comer, anda metida com o Y, andam enrolados, tiveram um caso, deram umas voltas.
Ganhamos aversão a palavras como namorado, achamos fabuloso quando alguém se casa "que coragem", como se fosse saltar de um avião sem para-quedas, que coragem, outras vezes só encolhemos os ombros porque "está-se mesmo a ver no que é que aquilo vai dar", como se a alternativa, saltitar de relações-qualquer-coisa fosse tão melhor.

Ao mesmo tempo que desvalorizamos tudo aos outros, enquanto estamos mesmo a ver no que é que aquilo vai dar, fazemos tudo para não ser aquelas pessoas que têm relações sérias, para não ter destroços se a coisa corre mal, para não ter restos de separações dramáticas com lágrimas dentro de nós que poderiam deixar marcas, para não cair numa rotina de casal que se senta a jantar sem palavras para dizer um ao outro, que se trai, que se maltrata um ao outro porque está farto e aborrecido, que se odeia silenciosamente, que se irrita com todos os pequenos defeitos do outro, que fantasia com terceiros.
Porque de facto, quando observadas de fora e de perto, todas as relações são más.

A pior parte de ser solteira é ter pavor de deixar de ser. Ou então, se calhar, é a melhor.

Fucked up dear John letter

23.7.09

o que eu já me ri... mas conto.
então,o tal, seguro e amoroso e tal... ai lá vem o riso... hahahaha...aquele de quem eu disse maravilhas... hahaha... eu, eu a falar como se ele fosse muito maduro... hahahah... eu a ler-lhe coisas certas e acertadas, naturais que só podiam ser verdade... ai esperem que não aguento...hahaha... eu a pensar sim senhor, metes tantos num chinelo... ai doi-me a barriga de rir... e... e...e... ele... sempre à altura, sempre a corresponder e a investir... hahaha.. pensar no que ele investiu....hahahah... ele... hoje do nada que não, é melhor assim, que não nos vamos aborrecer... hahahaha... foi muito bom!
Eu sem perceber muito bem a principio como quando no meio de um abraço sai uma alarvidade e nos vamos soltando lentamente... hahahaha e de repente nos cai o céu em cima e o peso do mundo nos ombros... hahahaha... e depois a ouvir aquilo tudo muito frase feita, muito coladinho com cuspo e "é assim que devo dizer, pois" hahahaha... já estou no chão... hahahaha... ...isto é triste, vou só ali agrafar a lingua aos dedos.

Ass: Abóbora debulhada em pevides

Eu sei que isto não é o da Joana, muito menos da Abóbora

Mas cheguei há pouco a mais uma alusão que só cabe aqui.
Escadotes lembram-me - hoje mais uma vez - snakes and ladders. Como o jogo, pois.
Enquanto ladder sobem-nos, levam-nos aos píncaros, ego ao alto, saltinhos de nenúfar em nenúfar. Depois, aparece a snake no caminho e é desandar ladeira abaixo sem passar na casa da partida.
Andava eu em treinos para bitchier bitch quando fui distraída por um destes. Felizmente estou quase de volta aos treinos, falta só o grito e choradela finais e um brevissimo luto de risota e muito sarcasmo.
Para acompanhar, segue-se dentro de horas post catarsico-ressabiado (sort of que we are ladies) em formato dear john letter.

Quero casar por procuração, pode ser?

19.7.09

Não é bonito eu sei, mas é assim.

Não preciso de um homem para levar os sacos do lixo [um velhinho que andou atrás de mim dizia "todas as mulheres precisam de um homem nem que seja para, como dizem, levar o lixo para o caixote"].

Não preciso de um rapaz que me escreva amo-te com o calor do cigarro no papel de fax, 100 vezes seguidas.

Não preciso de um namorado que me gabe as ancas [pouco haverá para gabar também] e me faça sentir muito bonita, inteligente, maravilhosa.

Não preciso de um amigo especial com quem partilhar tardes de chuva de inverno, da única maneira mesmo boa de passar as tarde de chuva de inverno.

Não preciso de um caso que me envie mensagens a meio da noite [ou da tarde], mesmo que sejam amorosas e me façam rir.

Meus queridos, eu já passei dos 30, aos 20 é que essas coisas tinham imensa graça.
Agora era mesmo só trocar umas palavras a meio de algum jantar enquanto se combinam horários para ficar/buscar/levar/deixar os miúdos, as compras de supermercado e um fim de semana em qualquer lado.

Dear John letter nunca deixada

16.7.09

Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse. E isso provoca ecos que duram o tempo que tiver de ser. Ecos que descem por mim abaixo e nunca me largam. Ouço-me desancar-te, encostar-te à parede, fazer-te num oito e no fim nunca mais te ver. Vejo-me explodir-te na cara todas as verdades a que fugiste e eu tinha tão alinhadinhas para te dizer.
Era tudo piropo, tesão e "minha Nossa Senhora" até um dia. O dia do costume.
Um dia deixaste de me tocar, de me elogiar de me deixar o ego nos píncaros. Assim, sem mais nada. Um dia ías ser pai, eu era a outra, e tinhas de te portar bem. Portar bem... "achas que tenho condições de te dar o que queres?" - ai pensar no ridículo clichet que te revelaste chega a ser cruel - eu não via nada, claro. Para mim, estavas "só" a ser cobarde. E era tão mais que isso. O alcance da coisa era tão maior que os ecos ali em cima só ficaram no presente por pura estética ou preguiça. Já não os ouço, já não quero saber. Também ainda não quero tropeçar em ti. Mas os ecos, já não ouço.

Quero aqui deixar o meu agradecimento público

aos meus "amigos" homens e casados que, tendo tentado descobrir na minha intimidade pormenores sórdidos ou (no mínimo) de algum interesse erótico e não tendo conseguido vislumbrar mais do que um dia-a-dia banal, sem aventuras de realce, sem toques de sordidez de alcova, fizeram o favor de me tentar formatar a personalidade para uma mais aceitável no feminino - nomeadamente dizendo que eu não arranjava homem por ser [sic] bruta como as casas.

Meus caros, eu em querendo ser insultada ou maltratada iria mais vezes ver o meu pai ou, quem sabe, já teria casado com um tipo parecido convosco.

A minha gratidão para com vocês é tanta que temo não poder pagar-vos de forma alguma.

Ficará para uma próxima vida em que eu, reencarnada numa magnífica ave de rapina, vos pouparei a vida e a saúde - vós reencarnados em pequenos animais rastejantes que servem de alimento às aves de rapina.