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Tem 33 anos [parte III]

5.8.09

Chegou o Verão e ela nunca falava das suas férias.
Ao almoço, mais uma vez, perguntei-lhe "Então, para onde vais de férias?" Não levantou os olhos do prato "Não vou para lado nenhum" e senti que aquela garfada de comida foi engolida a custo, como se tivesse medo que lhe fizesse mais alguma pergunta "Mas porquê?" Os olhos continuavam em cima do prato, os gestos tornaram-se mais rápidos e bebeu o sumo de um trago só "Não posso" e levantou-se com a desculpa que ia fazer um telefonema. Não ia. Saiu e puxou de um cigarro e eu, que nunca a tinha visto fumar, fiquei estupefacta e constatei, nesse momento, que talvez nunca a viesse a conhecer realmente - uns dias tão amável e faladora, outros dias tão reservada e soturna. Quase bipolar, diria.
Quando entrou sugeriu que fossemos tomar café noutro local e num passo rápido avançou para a caixa e pagou o almoço de ambas. Agradeci.
Em todo este tempo nunca falou directamente de si, disse-me apenas que tinha 33 anos, feitos no pior mês do ano - Fevereiro. "Não gosto do Inverno e Fevereiro é um mês que não se define. Custa a passar, sabes?" Não sabia, nunca tal tinha sentido. Aliás, nunca tinha ligado muito aos meses do ano mas fiquei a pensar no meu - Setembro - e acabei por constatar para mim própria que esse sim, talvez fosse o pior mês de todos - o dos recomeços, o que por si só, dá uma trabalheira.
Bebe sempre um café duplo, não lhe põe açúcar mas mexe o café como se o tivesse acabado de deitar. "Agora fumas?"
"Sempre fumei, a única diferença é que agora compro cigarros, antes fumava o fumo dos outros." Não valia a pena, aquele dia estaria com certeza a correr-lhe mal e desisti de lhe fazer este tipo de perguntas. "Vamos?" Fomos. O resto do dia foi passado em absoluto silêncio, apenas com as interrupções normais dos restantes colegas e chefes. Antes de sair, despediu-se com um até amanhã e naquele compasso de espera, entre eu levantar a cabeça da papelada e ela abrir a porta, senti-lhe as reticências na voz, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Mas sorriu apenas e saiu.

Chama-se Raquel [parte II]

28.7.09

Ontem chegou triste. Pousou a mala vermelha e saiu rapidamente a querer esconder as lágrimas que teimavam em saltar dos olhos. Penso que terá ido ao WC e que tenha respirado fundo, escondida por trás das portas minúsculas, tentando ter a privacidade que num escritório enorme nunca se tem.
Quando voltou olhou para mim de relance e eu, vergonhosamente, fingi que não estava a observá-la e continuei atrás do meu monitor, espreitando feita uma velha caquética que gosta de coscuvilhar a vida dos outros.
À hora de almoço perguntei-lhe se queria sair um bocadinho e convidei-a a almoçar comigo num restaurante de que gosto muito - Passion Fruit - ali na 5 de Outubro. Inesperadamente, acedeu.
"Podes só esperar um pouco enquanto faço uma chamada?"
Esperei. E em cinco minutos que ali estive, sentada na minha secretária a escrever post-its para que não me esquecesse das compras que ainda tinha de fazer quando saísse, ouvia-a murmurar que estava farta. Depois desligou.
"Vamos?"
"Claro."
Saímos, ela com a sua mala vermelha eu com a minha castanha e entre o 7º andar e o rés -do -chão, ela quebrou o silêncio que se instala quase sempre nos elevadores.
"Porque me convidaste?"
Surpreendeu-me a pergunta. Ali estava eu, sem ter como fugir, a pouco mais de um metro de distância daquela mulher e com uma pergunta apontada a mim, como se fosse uma arma.
"Não sei bem. Apeteceu-me."
Não disse a verdade. Mas ficámos assim e claro, falámos do tempo e do calor que tardava em chegar. O tempo é sempre uma boa desculpa para quem não sabe o que dizer... e eu não sabia.
No restaurante aquela pessoa deixou de ser quem parecia ser: sorriu, meteu conversa com o empregado e eu diria mesmo que flirtou com ele, deixando-me com uma pontinha de inveja por não ter aquele nível de descaramento: levezinho, subtil como uma pena mas perceptível a quem vê. Abriu-se num sorriso e perguntou da minha vida e eu, que pensava que iria ali para saber mais dela, acabei por falar mais de mim sem qualquer receio ou constrangimento. Estranho, diria.
Antes de entrarmos no escritório disse-se apenas "obrigada". E voltou a olhar para o telefone, mais uma vez, à espera que tocasse.

Nem tudo o que parece é

11.7.09

De manhã ela traz uma máscara de boa-disposição: chega ao escritório e cumprimenta as pessoas com um sorriso saudável. Consulta a agenda, verifica a papelada e começa a trabalhar. Eu, do outro lado da sala, limito-me a fazer conversa de circunstância e a sorrir na mesma medida - a simpatia nunca fez mal a ninguém e a rapariga nunca foi mal-educada comigo; apenas chegou há pouco tempo e ainda não houve tempo para afinar o nosso relacionamento profissional.
Por vezes levanto os olhos do meu trabalho e noto-lhe um olhar triste, tão triste e perdido que fico com vontade de me sentar à sua frente, deixar-me de conversas de circunstância e perguntar-lhe se está tudo bem, ou perguntar-lhe mesmo em tom de confirmação "Não está tudo bem, não é verdade?"
Veste-se bem, não usa demasiados acessórios e o cabelo é luminoso, tão luminoso que já foi tema de conversa entre nós - a única vez que falámos um pouco mais. Confessou-me não usar produtos caríssimos comprados no cabeleireiro mas antes aqueles produtos brasileiros que quase ninguém se atreve a comprar, pelo menos as portuguesas, diz ela. O que é certo é que até eu já os procurei e não os encontro.
Não recebe telefonemas ou mensagens. Olha de vez em quando para o telefone e acho que se limita a confirmar aquilo que estava à espera - ninguém a procurou. Fica sempre com um semblante triste que automaticamente disfarça se nota que está a ser observada. Escreve muito num caderninho cor-de-rosa, com um lápis de carvão e desconfio que é ali que guarda todos os pensamentos. É bonita mas parece-me infeliz, ou então é só impressão minha que tenho a mania de tentar ver para além daquilo que me é dado a ver.
Qualquer dia pergunto-lhe pelos tais produtos brasileiros e quem sabe... talvez seja esse o mote para mais algumas conversas ou desbafos e quiçá, uma futura amizade.