Imagino-me numa multidão reconhecendo-te a voz. Estou mais para a frente e num impulso - que mais tarde me fará remoer horas, dias - volto-me para te ver. Era a tua voz e eu, anos depois, ainda a soube conhecer no meio de tantas. Outras vezes é o ver-te passar na rua. Ver-te bem, e tu nunca me veres. Tortura. Não gosto destes cenários e de vez em quando torturo-me com eles.
O contrário é que sim. Desfilo com boas botas, cabelo decente e cara civilizada, e tu parado no trânsito, dentro de um escritório, vês-me e sentes-me a falta. E eu não sei, nem saberei.
Queria que me reconhecesses a gargalhada em vez da voz. Desta vez, eu atrás, tu na frente. E eu a rir. Num segundo, ouves, viras-te e confirmas-me. E eu penso "Banzai!", que em sonhos penso japonês (ou sic, já não sei). E tu com a cara de tacho com que tinha eu ficado antes: "ah és mesmo tu e eu não queria estar a olhar para ti". Só que olhar descaradamente nunca foi problema para ti. A gargalhada, essa é que queria que me ouvisses. E se eu tenho rido! Não, não ía dizer "mas eu não rio...", que pensavas? Por favor, não afectas isso tudo. Já não. E eu não troco rir por ti. Já não.
Mas continuo a querer que me vejas e tenhas saudades. Mesmo que eu nunca o saiba.
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